Pertencendo a algum lugar
Por toda a minha vida, eu nunca senti como se pertencesse a algum lugar. Eu sentia que algumas partes de mim pertenciam a alguns grupos ou lugares, mas nunca senti que eu era realmente parte de alguma coisa maior.
Durante minha infância eu tinha alguns amigos, e tinha um grupo de crianças na minha rua com quem eu frequentemente passava tempo, mas pra mim sempre foi mais sobre as atividades que fazíamos, e não porque eu gostava de estar com eles, ou era parecido com eles. Jogávamos bola, taco, brincávamos de Beyblade ou jogávamos Winning Eleven nos PS1s, mas sempre que a atividade não era uma dessas coisas, eu simplesmente não queria estar por lá. Eu me sentia como um estrangeiro que só fazia parte do grupo por um curto período de tempo.
Isso provavelmente (com certeza) tem relação com o fato de eu estar no espectro autista (algo que eu não sabia naquela época), o que literalmente significa que eu não era como eles. Mas o importante é que esse sentimento me perseguiu pela vida toda.
Cultura Local
Eu vivo no estado mais ao sul do Brasil, um estado conhecido por ter uma cultura local bem diferente do restante do país. Hoje em dia eu sei que não existe uma cultura brasileira homogênea. O Brasil é basicamente uma mistureba de centenas de outras culturas: indígena, africana, europeia, asiática, e o resultado de todas elas se juntando. Isso é o que torna o país legal. Mas na época, pra mim, a cultura brasileira era o que eu via na TV (e eu não tinha acesso a TV local). E sinceramente, nada do que aparecia lá tinha a ver com o que eu via aqui. Então, era difícil me identificar como parte desse país.
Há uns 10 anos, comecei um namoro de longa distância com uma menina que morava a uns 700km daqui. Mesmo com todos os obstáculos, fizemos dar certo e agora estamos casados! Enfim, eu lembro de quando os pais dela vieram visitar minha cidade pela primeira vez. O pai dela adorava a cultura gaúcha, e estava super animado pra vir pro RS e experienciar tudo em primeira mão, e provar um autêntico churrasco gaúcho. O que ele não sabia era que... não era assim aqui.
Então, quando meus sogros vieram pra cá pela primeira vez, eles ficaram surpresos (e levemente desapontados) que não era que nem eles imaginavam. Ao invés de churrascarias em todo canto, tinha massa, pizza e polenta. O sotaque era diferente. A arquitetura também. Claro, como eu vivo na maior cidade da região, eventualmente as culturas de outros lugares começaram a chegar por aqui, especialmente a gaúcha, já que é a mais próxima geograficamente. Mas a predominância da cultura colona italiana não era o que eles esperavam.
Eu não sou o maior fã de sair por aí e experienciar essa cultura em primeira mão (pelo menos não era; conforme vou ficando mais velho, começo a gostar mais disso), mas já participei de vários eventos de família e festas de igreja com raízes italianas. Então, sempre que eu via pessoas falando sobre o Brasil ou o RS, eu nunca via eu e as pessoas ao meu redor representados ali. Minha conclusão lógica é que eu não pertencia ao estado ou país, e talvez, já que eu era um "cidadão da internet" desde criança e tive muito contato (virtual) com culturas de outros lugares do mundo, talvez meu lugar no mundo era em outro lugar!
Desde o início da minha vida adulta, essa ideia de sair do país esteve presente, e eu tentei ir molhando os pés algumas vezes. Tentei ir para o Canadá estudar inglês por um mês pra ver como que era lá, mas infelizmente meu visto foi negado duas vezes, e desisti. Então fui pra Europa pra passear, o que foi bem legal! Pensei que, como minha família era de lá, naturalmente seria o lugar em que eu iria me encaixar.
Ano passado, me mudei para a Itália por 3 meses, pra conseguir o reconhecimento da cidadania italiana. A ideia inicial era ficar lá após os 3 meses, arranjar um lugar pra morar, e deixar o Brasil pra trás. Mas, conforme a data da viagem se aproximava, eu e minha esposa percebemos que nenhum de nós estava confortável com a ideia de deixar tudo pra trás e pular no desconhecido. Então, decidimos usar esses 3 meses como um test drive e ver se iríamos gostar de morar fora, e se íamos sentir saudade do Brasil. Fomos muito sábios.
Esses 3 meses foram... difíceis. Claro, eu estava obviamente desconfortável com todas as mudanças que cruzar o Oceano Atlântico trazem, mas nos mudamos para uma "cidade" muito, mas muito pequena (com uns 300 habitantes), ficamos em uma casa de 300 anos de idade, e no meio do nada. Eu tento não ser injusto e não julgar o país inteiro por causa de uma cidadezinha no meio do nada, e realmente acredito que morar na Itália deva ser muito bom. Mas, depois de tudo aquilo, acho que o maior sentimento que eu e minha esposa tínhamos não era o desgosto por onde a gente estava, mas sim a saudade da nossa casa.
De repente, tudo ficou mais claro. Embora a gente mora num lugar ítalo-brasileiro, ele ainda é brasileiro. Essa mistura de culturas pode ser mais sutil do que em outras partes do país, mas ela ainda existe. E ainda é incrível. As pessoas, o clima, a comida, a música, é tudo único a esse pequeno e especial pedaço do mundo. Especial porque é meu.
Como um autista recém diagnosticado, estou aprendendo muito sobre eu mesmo, e percebi que eu sempre sofri pra entender a minha própria identidade. Como posso aprender quem eu sou se nunca vejo muito de mim por aí? Não é uma jornada fácil, e sinceramente não acho que essa jornada tenha um fim. Nossa identidade muda o tempo todo e é moldada pelo que está ao nosso redor. Esse sentimento de pertencimento é único pra cada pessoa, alguns encontram ainda como crianças, outros nunca encontram. Eu sempre achei que eu era da turma do "nunca".
Hoje, eu estava assistindo a TV local, onde estavam transmitindo um festival celebrando a cultura italiana, ou, mais especificamente, a cultura ítalo-brasileira que se desenvolveu aqui depois de todos esses anos. Enquanto eu assistia, me veio um pensamento na cabeça: "É, eu pertenço aqui".